segunda-feira, 19 de março de 2012

Capítulo 27 - Abismo

Evanescence - The Last Song I'm Wasting on You.MP3

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E eu sei, eu sei que terei que assistí-los ir embora
Simplesmente aguentar esse dia
Desista do seu caminho, você poderia ser qualquer coisa
Desistir do meu caminho e me perder, hoje não
É culpa demais pra carregar [...]
E me odeie se te faz sentir bem
Eu não consigo mais ouvir seus gritos 
(Evanescence - The Last Song I'm Wasting on You) 




No Aeroporto, nos despedir da Hevi foi muito complicado, eu a abracei,  me virei e fui em direção ao embarque. Eu não suporto despedidas, eu não sirvo pra isso, por isso muita das vezes eu demonstro ser fria, mas na verdade essa sou só eu dizendo que vou sentir tanto a sua falta que não consigo me despedir então eu só saio fingindo que nada aconteceu. Bizarro como em um segundo, com apenas uma frase toda a minha vida mudou, indo de complicado para um caos eminente - soltei um riso nervoso - tantas despedidas, tantas lágrimas, que ainda viriam e que já tinham sido derramadas... E depois de tudo isso só pude tirar uma conclusão, eu estou me tornando cada vez melhor em reprimir coisas ruins, como saudades, crises nervosas onde você chora de soluçar até não aguentar mais, o medo, e o pior de tudo a dor, a dor eu aprendi a confortá-la e congelá-la dentro de mim, eu confesso que ela tomou grande parte de mim, mas não há outro jeito se não aceitá-la, e reprimi-lá para o mais fundo que puder.

Quando chegamos no aeroporto, a mãe de Clara já estava esperando por nós, fomos direto para sua casa, a Aline minha irmãzinha estava dormindo, nós chegamos bem pela manhã, pude ver que a morte de minha mãe afetou claramente a mãe da Clara, afinal as duas eram melhores amigas desde a faculdade, olheiras se destacavam ao redor dos olhos claros e cansados dela. Porque a vida tem que ser feita de tantas perdas e "por quês?", tão complicada e complexa? eu sinceramente não entendia, e a essa altura não me importava mais encontrar qualquer resposta, eu fiz o que tinha que fazer, e agora tenho que seguir com a minha vida.

Quando entrei no quarto de Clara, meu coração se afundou ainda mais olhando para minha irmã deitada, tão frágil, tão machucada, seu rosto dormindo não era relaxado e tranquilo, era dolorido e assustado, e ver isso fez com que a dor que eu estava reprimindo quase viesse a tona, mas eu precisava ser forte, forte por ela, e pelo o que eu teria que enfrentar.
Fui me sentar na cama ao seu lado e beijei sua testa, ela se virou e me olhou, piscou várias vezes como se imaginasse que estava sonhando, e depois se jogou no meu colo.
- É você mesmo Cat? Você está mesmo aqui? - eu podia ouvir os soluços na sua voz, meu deus minha irmã estava quebrada, isso não era justo, ela não merecia uma dor desse tamanho na idade dela.
- Claro meu amor, eu estou aqui, agora relaxe está tudo bem, eu estou aqui e não vou partir mais, não vou sair do seu lado, agora somos eu e você. - Aline me abraçou ainda mais apertado e deitou sua cabeça sobre o meu ombro.

Eu acariciei seus cabelos, e cantei a canção de ninar que nossa mãe cantava para nós, depois de alguns minutos ela já estava dormindo de novo.
Depois de botá-la na cama, tomei um banho, arrumei minhas coisas no quarto de hóspedes onde eu iria dormir com a Clara, achamos melhor deixar o quarto dela para minha irmã, ela vivia tanto na casa da Clara quanto eu, e pensamos que seria bom que ela dormisse em um lugar familiar, onde ela se sentisse bem, e estivesse acostumada.

Eu não quis almoçar, não estava com fome, fui para parte de trás da casa, me sentando no quintal da Clara, para olhar o céu, estava nublado.
Depois de alguns minutos, me vi reconhecendo rostos nas nuvens e desviei os olhos no mesmo instante, eu sabia que rosto veria constantemente se continuasse, e eu estava reprimindo ele também, principalmente ele.

Aline se aproximou e se deitou do meu lado.

- Tudo bem? - ela se aconchegou, deitando em cima da minha barriga.
- Tudo e como você ta Aline? - eu perguntei, alisando seu cabelo.
- Eu adoro o tempo nublado, cinza é uma cor bonita - ela disse, desconversando o assunto anterior.
- Aline?
- Sim?
- Você ta bem?
- Estou, e você?
- Acho que sim... Eu vou sentir falta dela.
- Eu também, mas pelo menos eu posso vê-la todos os dias de novo... Pensando bem eu acho que só gosto do tempo nublado de dia.
- Por quê? Como assim vê-la todos os dias? - Arquiei as sobrancelhas
- Por que ela virou uma estrela agora, eu a vi ontem, era a que mais brilhava no céu, e as outras pareciam brilhar de volta para ela, ela devia ter contado uma piada por que elas pareciam estar rindo, e provavelmente dela e não da piada - nós rimos juntas.
- É... ela não era muito boa com piadas.
- E com o tempo nublado, não da pra ver as estrelas, então eu espero que fique assim só até o sol ir embora, e depois eu vou poder ver a mamãe de novo. - ela sorriu. E nesse instante eu percebi, ela iria ficar bem.
- É verdade, então é melhor nós torcemos os dedos, e contar até dez bem apertado pra poder realizar - Minha mãe dizia que se você desejava uma coisa era só fazer isso que acontecia, mas pelo visto não deve funcionar com a morte.
- Você tem razão, torce bem apertado Cat, até ficarem roxos - ela riu.
- Pode deixar.

Ficamos ali por mais algumas horas e depois entramos para tomar café, fizemos uma bagunça na mesa quando tentamos fazer um bolo, e a mãe da Clara nós fez ficar limpando a cozinha até a hora do jantar, e depois do jantar Aline dormiu e eu e Clara ficamos conversando até tarde como típicas adolescentes, mas como se aviso estivesse no ar, ela não tocou em nenhum assunto que envolvesse a palavra com "v", esse assunto estava permanentemente proibido.

E depois os dias seguiram normais, sem nada de especial, a mãe da Clara tinha assumido nossa guarda, e estavamos morando oficialmente com ela agora, no dia seguinte eu fui a escola com a Clara para refazer nossa matrícula, na semana seguinte já tinhámos voltado a escola, e assim a mesma rotina de sempre, ou quase, é claro que o buraco estava ali, nada de gritos da minha mãe de manhã - só os da mãe da Clara - nada daquele olhar dela quando tinha que me dizer não, mas não aguentava a minha carinha de cachorro molhado quando eu pedia algo, nada de tortas especiais, nada da canção de ninar - mas eu ainda cantava para Aline todas as noites -  enfim, nunca seria o mesmo, isso era óbvio, mas pelo menos estávamos nos saindo bem até agora, a Aline parecia estar feliz, e aquele rosto assustado enquanto dormia, com o tempo ia desaparecendo, e a tranquilade e paz voltaram, fazendo-a parecer um anjo.

Se passou um mês, dois, três... e assim por diante, estávamos quase no final do ano letivo, tinhámos por algum milagre conseguido nos recuperar nas matérias, e tinhámos boas chances de passar, durante todos esses dias não houve um sequer em que eu não tenha pensado nele, em que eu não tenha sonhado com o sorriso dele, com o som da sua risada, seu hálito frio sobre a minha pele, ou o seu beijo. Todos os dias se passavam lentamente, se arrastando como se cada segundo fosse um lembrete do que eu tinha perdido, da metade de mim que vagava por ai e que eu sabia que nunca conseguiria repor. Algumas vezes, eu via por um vislumbre uma sombra me observando, no começo isso estava trazendo o pânico a tona, me fazendo ficar alerta o tempo inteiro, e isso acabou comigo por um tempo, mas depois eu passei a me acostumar e depois ignorar, até que eu parei de perceber, ou eu percebia e interrava isso tão fundo que eu nem mesmo me dava conta. Henrique tinha me avisado que estaria vigiando, e não posso negar que ao mesmo tempo em que o pânico florescia, a esperança me rasgava mais forte, esperando que em um desses vislumbres eu pudesse ver o seu rosto novamente, mas com o tempo eu desisti, eu sabia que isso não iria acontecer e não havia motivo para ficar alimentando isso, era uma parte da minha vida que eu não podia voltar, e muito menos lembrar, então depois eu fingi me esquecer, de Henrique, do que eles eram, de todos, fingi a ponto de não enchergar vislumbres, e quando enchergava imaginar ser apenas um ser humano normal fazendo alguma coisa e assim por diante, Aline passou de ano como primeira da classe e nós tiramos tantas fotos que eu tenho certeza que a visão dela ficou embaçada por um tempo.

As coisas seguiam para o caminho que tinham de seguir, assim era vida, ela não para, ela não espera, ela segue seu curso como uma correnteza te arrastando junto com ela, te obrigando a aceitar o seu ritmo e a se acostumar com ele, mesmo quando muita das vezes você bata em uma pedra, e se rale nela, o rio continua seguindo, e limpando o sangue que escorre no caminho, cicatrizando, e arranhando de novo, um rio que eu sabia que logo iria despencar em uma cachoeira, e acabar, pelo menos para mim, mas todos os rios despencam não é mesmo? essa era a questão da vida, aproveitar a vista que o rio lhe proporcionava, antes de despencar.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Capítulo 26 - Recomeço

Evanescence - My Heart Is Broken

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Eu não posso continuar vivendo dessa maneira
E eu não posso voltar do jeito que eu vim
Acorrentado por este medo que nunca vou encontrar uma maneira
Para curar a minha alma
E eu vou vagar até os fim dos tempos
Semivivendo sem você 

(My heart is broken - Evanescence)





Depois que Pedro saiu, eu entrei em uma crise de choro, todas as lágrimas e soluços que estavam presos finalmente vieram a tona, fiquei assim por algumas horas até que sem que eu percebesse eu adormeci. Acordei com a Clara sentada ao meu lado me olhando, o sol já estava se pondo o que significa que eu tinha dormido o dia inteiro, mas pelo menos eu me sentia melhor, mais inteira, mais forte, diria até mais adormecida.
Me levantei devagar e me sentei.
- Oi - minha voz ainda estava rouca e eu dei um pigarro.
- Oi Cat, eu sei que é uma pergunta idiota, mas como você está? - Eu podia ver a dor nos olhos da Clara, ela me conhecia bem o suficiente para saber o caco que eu estava por dentro.
- Eu estou.. Eu não sei, não pensei muito nisso ainda.
- Eu passei para trazer o seu almoço, mas você ainda estava dormindo então eu o deixei ali na mesa, ainda está quentinho.
- Obrigada - eu sorri. Não me sai muito bem.
Eu me levantei e fui me sentar na mesa, eu não estava com fome, e meu estômago com certeza estava embrulhado, mas eu precisava colocar alguma proteína para dentro, não sabia até que ponto eu ainda estava sensível, por fora eu me sentia adormecida, simplesmente não sentia nada, mas por dentro eu estava tão frágil, tão quebrada, e de tantas formas diferentes que nesse momento uma única palavra poderia me destruir, e no caso de isso acontecer eu queria ter alguma coisa no estômago pra tentar me manter de pé.
Eu sabia que essa noite seria muito longa.
Depois de comer fui tomar um banho, durante todo o processo Clara não disse mais nada, só ficou quieta folheando um dos meu livros, o que me fez pensar será que meu rosto demonstrava o pânico que eu estava sentindo por dentro? ou ele refletia a frieza do meu corpo? pelo visto a primeira opção é a mais provável, Clara sempre falou o tempo inteiro, não importava o que acontecesse, e hoje ela se calou. Eu suspirei. Silêncio é bom, é calmo, sereno, sem pressa, e tudo o que eu preciso no momento.
Quando estava pentiando o cabelo Clara fechou o livro e se virou para mim, e eu soube que chegará o momento de falar do inevitável, a resposta para aquela pergunta que pairava em minha cabeça. E agora?
- Cat?
- Oi Clara
- Eu...hã...- Nunca vi Clara lutar com as palavras como ela estava fazendo agora, isso elevou um pouco o meu pânico, mas o corpo continuava adormecido, e eu agradeci em silencio por isso. - Cat, eu sei que é tudo muito cedo, mas nós precisamos conversar amiga.
- Pode falar - eu disse me virando.
- Cat, eu sinto muito, muito mesmo e se eu pudesse mudar isso eu mudaria, eu daria qualquer coisa para não ter que ver seus olhos assim agora. - Eu abaixei a cabeça - Mas Cat, nenhuma de nós duas pode mudar o que aconteceu, e mesmo com a dor, você precisa ser forte, e eu sei que você já está sendo forte, como sempre, eu no seu lugar não teria nem um terço do seu controle e você sabe disso, mas ainda sim eu quero que você saiba que eu estou aqui amiga, como sempre estive e sempre vou estar.
- Obrigada Clara - foi tudo o que eu consegui dizer, o nó na garganta voltou me sufocando outra vez. Engoli em seco.
- E eu sei que você está confusa, então eu só quero dizer amiga que vai ficar tudo bem, vamos resolver isso juntas, tomar uma decisão juntas.
- Obrigada Clara, mesmo, mas a decisão já está tomada, não precisa se preocupar, essa noite ainda eu pretendo voltar para o Brasil.
-Cat? Tem certeza?
- É claro que sim Clara, minha irmã não morreu, e eu agradeço com todas as minhas forças por isso, então agora eu não sairei do lado dela, já deixei minha mãe sozinha, não vou cometer o mesmo erro de novo. - eu me virei de volta, recomeçando a pentiar o cabelo.
- Cat, eu sei disso, mas eu também sei o quanto você ama essa família, tem certeza de que quer mesmo se separar deles?
- Clara entenda uma coisa, minha irmã tem a mim, ela tem uma família, eu eu também tenho, ela é minha família agora, e eu não vou deixá-la, ela terá uma infâncil feliz, e saudável, longe de toda essa confusão, ela não tem nada haver com isso, eu causei tudo isso, ela merece ser feliz, ter uma infância normal, e ela vai ter.
- Tudo bem Cat. E... você vai embora hoje?
- Sim.
- Você já conversou com Henrique..? Com a Isabella?
- Não, mas irei informá-los agora, não tem conversa Clara, eu já tomei minha decisão e eu vou embora hoje.
- Tudo bem então, vou ligar para minha mãe e avisar que estamos voltando. - Ela se levantou e caminhou até a porta, antes de sair ela voltou, me abraçou e sussurrou no meu ouvido - Só não deixe de ser a minha Cat, e tudo ficará bem.
Eu retribui o abraço, e beijei sua testa.
- Obrigada.
- Até daqui a pouco então. - e ela saiu do quarto.
Sozinha, eu olhei em volta, o meu novo quarto, com algumas das minhas velhas coisas, parecia representar perfeitamente a confusão que estava minha vida, a mistura que havia sido feita, a junção de uma Catarina humana, com uma Catarina que era a reencarnação de uma vampira e que iria se transformar em uma, e como se isso não bastasse ainda estava apaixonada por um.
Que confusão. E agora ainda por cima estava órfão.
Bem órfão ou não, ela ainda tinha a sua irmã, e a vida dela agora estava em sua responsabilidade, ela já perderá muitas pessoas que amava, e não estava disposta a correr esse risco de novo.

Quando chegou ao escritório de Henrique, ele e Isabella estavam sentados um ao lado do outro, como se soubessem qual seria o assunto da conversa, e não concordassem nem um pouco.
- Oi  - eu me sentei de frente para eles.
- Oi minha filha, como você está? - Isabella foi a primeira a falar.
- Razoavelmente bem, nós precisamos conversar.
- Pode falar minha filha - dessa vez Henrique falou, e me encarou.
- Eu estou voltando para o Brasil essa noite, eu vou cuidar da minha irmã e garanti que ela tenha uma infância feliz e normal, e depois...Eu não sei.
- Catarina, sua transformação está se aproximando você sabe disso. - Henrique vincou a testa.
- Eu sei. - suspirei - Mas não vou deixar minha irmã, me desculpem, ainda mais sabendo que eu posso morrer nessa transformação, eu não posso deixá-la sozinha.
Isabella se endireitou, e fincou a testa, como se a palavra "morte" tivesse mandando um calafrio por sua espinha.
- Catarina, e Carlos? Você não pode simplesmente voltar para o Brasil com essa guerra, não pode ficar desprotegida, voltando você só estaria pondo sua irmã em um perigo maior.
- Assim como se eu ficasse eu colocaria a minha mãe? Bom, parece que um pequeno detalhe como localização geografica não altera muito as coisas. - eu fisse friamente. - Isso não importa, eu só vim informá-los que eu estou partindo, quanto ao Carlos, bom Henrique tenho certeza que você é bom em fazer acordos, e se possível tente manter essa guerra fora da américa do sul, por favor.
Henrique encarou Isabella por um instante e depois assentiu.
- Tudo bem minha filha, se é assim que você deseja pode partir, eu cuidarei de Carlos e o manterei longe de você, e por precaução mandarei alguns guardas para cuidar da sua segurança e da sua irmã.
- Não. Eu não quero nenhum tipo de vampiro, bruxo, seja o que for perto dela, ela vai ter uma infância normal, e não terá nenhum tipo de contato com esse mundo.
- Tudo bem, mas não posso simplesmente lhe deixar lá sem nenhuma notícia, eu mandarei alguns guardas, e darei uma ordem para que fiquem longe de vocês e jamais façam contato, apenas observem e cuidem para que nenhum acidente ocorra.
- Obrigada. - Eu me levantei. - Hum...Foi bom conhecer vocês, éh... - Nesse momento Isabella se levantou e me abraçou, eu não pude resistir e retribui o abraço, eu sabia que era um adeus, eu provavelmente não iria sobreviver a transformação, e como ela era incerta, eu não estaria aqui quando acontecesse, só podia me despedir agora.
Isabella começou a chorar, e quando as lágrimas de sangue começaram a escorrer por seu rosto, ela me deu um beijo e deixou a sala, quando eu estava a ponto de segui-la, Henrique se levantou.
- Espere.
Eu me virei.
- Eu posso sentir suas emoções Catarina, não se esqueça disso, eu sei tudo o que acontece em seu coração, e só tenho um pedido a fazer, não deixe que essa raiva, e esse ódio tomem conta de você, você não é assim Catarina e sabe disso, toda essa frieza não irá tornar nada mais fácil, só irá afastar as coisas que iram lhe trazer alguma felicidade.
- Tudo bem, obrigada. - tentei dar um sorriso a ele, mas a dor que começava a irromper em meu peito não deixou que ele se alargasse a mais do que uma careta, eu me virei e sai.

Quando cheguei ao quarto, Clara já tinha arrumado minhas malas e as delas, o resto das minhas coisas já estavam sendo enviadas de volta para o Brasil, as passagens estavam em mãos, tudo estava pronto.
Hevi nos ajudou a levar as malas até o aeroporto, e quando saimos da ordem dei uma última olhada para o lar que eu havia descoberto e que agora eu abandonava. Uma coisa era certa, a felicidade havia se escondido, e não restara nada a não ser o vazio. E nesse vazio, sopros gelados seriam a única coisa a completá-lo por um bom tempo. 

Capítulo 25 - Adeus

Levi Kreis 01 - I Should Go

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Eu deveria ir 
Antes que minha vontade se enfraqueça
E meus olhos começam a protelar 
Por mais tempo do que deveriam
Eu deveria ir 
Antes que eu perca meu senso de razão
E essa hora tem mais significado do que jamais poderia 
Eu deveria ir 

(Levi Kreis - I should Go )


Eu caminhei tropega, em rumo a nada, eu não conseguia pensar, ou falar qualquer coisa, só uma frase percorria minha mente "minha mãe está morta", é como aquelas notícias que quando você recebe, você começa a rir porque sabe que é impossível, que nunca poderia acontecer, é exatamente isso, não a parte de rir, mas a parte do impossível era exatamente o que estava na minha cabeça agora, eu continuava repetindo para mim mesma, que isso não poderia estar acontecendo, não comigo, não a minha mãe.
Depois de caminhar por alguns minutos percebi que estava de pé em frente ao carvalho, a noite o deixando mais sombrio e trazendo de volta a notícia que estava açoitando a minha mente.
Me deixei cair de joelhos, não tinha mais forças para ficar de pé, não depois de tudo, todo o meu corpo só tinha força para mais um suspiro, as lágrimas percorrendo o meu rosto, e eu só conseguia encarar o carvalho, em um estado catatônico, eu não sabia o que fazer.
Uma brisa passou e pude sentir uma presença atrás de mim, eu não me virei, eu estava perdida em pensamentos, o meu corpo estava funcionando, eu podia ver e ouvir tudo ao meu redor mais não conseguia responder, não conseguia exprimir qualquer reação.
A pessoa que estava atrás de mim se aproximou e se ajoelhou ao meu lado, na luz da lua Pedro estava mais lindo do que nunca, mesma perdida entre medos e impossíbilidades eu não poderia deixar de notar.
Ele puxou o meu corpo para junto ao dele, e eu me aninhei a ele, debrucei minha cabeça em seu ombro e esconde meu rosto em seu pescoço, lágrimas descendo, suspiros fortes saindo, mas eu estava alheia, agora aninhada sobre ele, seu cheiro me trouxe um pouco mais a realidade, a consciência voltando aos poucos.
Quando eu tentei me levantar, seu abraço forte não deixou, ele me puxou mais para perto e me abraçou com mais força, seus dedos deslizando pelos meus cabelos.
- Sh.Sh. Ta tudo bem Catarina, eu estou aqui. - ele sussurrou em meu ouvido, seu hálido frio mandando arrepios pela minha nuca.
- Minha m..mãe?- aquele caroço enorme na minha garganta, ainda não tinha ido embora, minha voz nada mais do que um sussurro. - Ela morreu mesmo?
Pedro beijou minha testa.
- Eu sinto dizer que sim.
Uma lágrima desceu dos meus olhos.
- Então acabou. - foi tudo o que eu consegui dizer, depois sem que eu percebesse eu cai no sono, e despertei com Pedro me colocando em minha cama.
- Pedro? - Perguntei, meus olhos pesando toneladas, estavam se abrindo aos poucos.
- Durma Catarina, você precisa descançar; - ele disse tirando uma mecha de cabelo do meu rosto, e demorando os seus dedos sobre minha bochecha.
Ele se virou para sair.
- Não - eu agarrei seu braço - Hã, fique... Só mais um pouco, por favor. - minha voz fraca, a dor estampada em cada palavra.
- É claro. - Pedro se deitou ao meu lado e me abraçou.
A noite se passou longa e ininterúpeta, mesmo estando nos braços de Pedro, o caroço que se instalou em minha garganta permanecia, eu não sabia o que fazer, eram tantas coisas para se pensar ao mesmo tempo, tantas decisões e eu sentia o vazio da realidade me açoitando todo o tempo, cada vez me puxando mais para o fundo, conforme minha mente ia aceitando a verdade, eu nunca mais veria minha mãe novamente. E agora que ela tinha partido, minha irmã estava sozinha, indefesa no meio de todo esse lixo, e eu não posso abandoná-la agora, aos poucos eu descobri o que fazer, mas levei muito tempo para aceitar, minha mente reprimia essa idéia automáticamente, evitando a dor que ela traria, mas... Eu tenho que voltar, cuidar da minha irmã, eu não posso traze-lá para cá, no meio desse fogo cruzado, toda essa guerra, e esses vampiros, MEU DEUS! Ela é uma criança, ela merece ter uma infância saudável e normal, mas me afastar dessa família que eu descobri aqui, e... Pedro - Ao pensar nisso enguli em seco e pudi sentir o caroço que se instalava na minha garganta- Eu sabia que se eu fosse embora, eu o perderia, não que eu já o tivesse, mas ao menos eu o tinha por perto, como agora nos momentos em que tudo o que eu preciso é o seu abraço, e se eu for... Então o que me restará? Reprimi a dor que começou a me invadir com essa idéia. Eu suspirei.
- Tente dormir um pouco Catarina, você precisa descançar. - Pedro deslizou seus dedos pelo meu braço. Isso não estava ajudando muito, não quando a dor de partir começava a surgir, não quando eu sabia que logo perderia isso. Reprimi esses pensamentos.
- Eu não estou com sono - menti.
- Você é teimosa - pude sentir o sorriso em sua voz.
- Pedro?
- Sim?
- Você sabe que agora eu terei que ir embora. - o caroço se apertou mais ao dizer isso em voz alta, e minha voz falhou.
Ele não respondeu, e o silencio se arrastou até que pude ver que já clareava.
- E agora você tem que ir? - perguntei, reprimindo o desespero que se instalou em mim, meu coração se acelerou, porque eu sabia que seria a última vez que estaríamos juntos, e ele também sabia disso.
- Sim, você está bem? - ele se sentou.
Não respondi no início, eu pensei sobre essa pergunta, eu queria ao menos ser sincera, e tirei a conclusão de que, não... Eu não estava bem, e não sabia se algum dia eu ficaria novamente, mas no fim nada disso importava.
- Estou - menti.
- Então eu devo ir agora, e você trate de dormir, você precisa descançar - ele se levantou e ficou me encarando. Depois se virou e foi em direção a porta, antes de sair ele se virou - Você sabe que eu iria buscá-la de novo se pudesse, mas infelizmente esse não é o caso - eu podia ouvir a dor em sua voz, e isso só me despedaçou mais por dentro - Durma bem Catarina.
E com isso ele se foi, deixando para trás apenas as memórias que eu guardei no lugar mais seguro da minha mente, para que elas nunca se perdessem, memórias como o som do seu riso, ou como os olhos dele brilhavam magníficamente a luz da lua, ou seu hálito frio que me causava arrepios, ou o seu cheiro que sempre me embriagava e levava uma onde alívio por todo o meu corpo, o seu toque que apesar de frio, deixava uma linha quente pela minha pele, e o pior de todos a dor que se instalou no meu peito, a cada respirar me rasgando mais por dentro.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Capítulo 24 - No Luto

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Agora não há nada além do tempo desperdiçado
E palavras que não têm sustentação
E agora parece que o mundo inteiro está esperando
Você pode ouvir os ecos desaparecendo?
No luto, vou subir
No luto, vou deixar você morrer
No luto
Toda a minha desculpa


(In the mourning – Paramore)

Depois do banho eu voltei para o meu quarto e me deitei, havia muitos pensamentos em minha cabeça que precisavam ser postos no lugar.
Primeiro, eu vou me tornar uma vampira e eu posso morrer. No começo, quando eu ouvi isso do lado de fora do escritório de Henrique, a ideia de morrer foi assustadora, havia tantas coisas na minha vida que eu ainda não havia feito, coisas que não haviam sido ditas e vividas, mas depois do que passei naquele deposito, o meu corpo não se arrepia mais com essa ideia, eu não tenho mais medo da morte, porque depois de chegar tão perto dela, só posso dizer que ela é incrivelmente calma e confortante.
Segundo, Flávio me beijou, eu me lembro claramente agora, e embora não seja uma cena das mais lindas contando que eu estava com o sangue dele em minha boca, seu beijo foi...Foi delicado, calmo, levando uma onda de paz por todo o meu corpo, foi ótimo, mas eu não sei o que isso significa. Flávio pode ter se tornado um cara legal durante esse nosso tempo de convívio, mas ele ainda é o Flávio, o mesmo que me ensinou na minha primeira noite aqui, que se deve temer os vampiros tanto quanto aceitá-los, e eu sei que ele tem um lado obscuro assim como tem um bom. E Pedro.
Terceiro, Pedro, impressionante como em todos os meus pensamentos e dilemas desde que o conheci, ele sempre está incluído. Eu simplesmente não consigo esquecê-lo, ou não mencioná-lo nos meus pensamentos, é espontâneo, todo o meu corpo anseia por ele, mas minha razão ainda me diz que ele ainda ama a Katherine. Eu sei que ele me ama também, eu sinto isso agora, mas não sei se é o bastante, eu não sei se eu quero me apoiar nisso para estar com ele, porque eu o amo com todas as minhas forças, e o amor dele pode não ser tão grande. E claro, com Pedro vem à complicação chamada Emily, minha querida e incrível prima, que eu gostaria de enforcar na maioria das vezes em que nos vimos. E somando tudo isso vem o fato de que no final, tem grandes e consideráveis chances de eu sair dilacerada. E eu...Não sei se aguentaria perdê-lo mais de uma vez.
Uma batida na porta interrompeu meus pensamentos.
- Entre
 Era Isabela, linda e jovem como sempre.
- Bom dia minha filha, eu vim ver se estar melhor e se quer almoçar. – ela sorriu se aproximando da cama.
- Estou bem melhor, e sim acho que almoçar seria uma boa ideia – eu sorri
- Tem certeza de que está bem? Quer dizer você passou por muita coisa Catarina, você é apenas uma menina. – ela abaixou a cabeça e uma onda de dor passou por seus olhos.
- Isabela eu estou bem, eu confesso que não são as minhas melhores lembranças – eu soltei um riso nervoso – Mas eu já estou de volta, com a Clara me sufocando com o seu abraço e gritando comigo, você toda preocupada, eu já me sinto em casa, e essas lembranças já estão enterradas e esquecidas.
Ela sorriu, um sorriso tão grande que criou covinhas, e em seus olhos o alívio.
- Que bom minha filha, então quer que eu traga o almoço, e chame a Clara?
- Ela ainda não almoçou?
- Não, ela quis esperar você acordar.
- Ah, então tudo bem pode chamá-la.
- Ok
Isabela saiu em segundos do meu quarto, me deixando sozinha com meus pensamentos novamente.
Eu sincera mente não sabia o que eu ia fazer, mas antes de tomar decisões eu preciso me alimentar, uma pessoa nunca consegue pensar com fome.
Clara entrou com nossos pratos e os sucos em uma bandeja, a gente comeu mais rápido do que eu imaginei que fosse possível.
Depois de deitar sobre a cama, e ouvir a Clara falar sobre como sua montaria está quase excelente, e como ela viu o vampiro mais lindo do mundo, mas obviamente não foi falar com ele, em relação aos vampiros sempre fica aquela onda de tensão e perigo, e isso só me diz que ela não vai desistir tão cedo, nunca vi uma pessoa tão atraída pelo perigo como a Clara. Desde os quatros anos dela, tudo o que ela faz é ir atrás do que pode matá-la, como pular do escorrega mais alto aquela vez no parquinho só porque ela ouviu um menino dizer que o primo dele quebrou um braço quando caiu, foi impressionante, ela riu e disse que ia cair em pé como uma pantera. Ela assistia filmes de espiãs demais. Ela só conseguiu deixar a mãe dela e a minha desesperadas quando ela caiu de cara e levantou com a boca cheia de areia. Eu ri com esse pensamento.
Nós decidimos dar uma volta, andar pelos corredores, sentar no gramado, ver o sol, o pessoal aqui não curte muito ficar bronzeado. Ok. Isso foi uma piadinha de mau gosto da Clara.
Chegamos a um jardim na parte lateral da mansão, ele tinha flores lindas suas cores era uma mistura perfeita de amarelo, rosa e violeta. E onde estávamos conforme anoitecia, a visão para o carvalho era perfeita.
- Eu adoro aquele carvalho, ele é tão livre e solitário, mas lindo. – eu disse meio que para mim mesma.
- Ah claro, eu ainda prefiro aquela visão que eu te disse no quarto, é muito mais interessante na minha opinião – ela me deu um sorriso malicioso.
- Clara, eu não vou bancar a amiga chata e dizer “vai com calma”, mas nesse caso eu tenho que dizer com ênfase “por favor, vai com calma, ele é um vampiro, e você não é muito experiente nesse tipo de relação pelo visto”.
- Sério? É claro que eu sei disso Cat, relaxa! Eu estou só admirando a distancia, como uma flor venenosa, você adora olhá-la, mas sabe que tocá-la tem consequências.
- É por ai, ainda bem que você entendeu o recado. – Eu ri – Você e sua mania de fazer coisas que podem partir sua cabeça no meio, e depois eu que sou louca. – eu bufei
Ela riu e se jogou no meu colo.
- Eu posso ser um pouco louca, mas o que é a vida sem a loucura? E que loucura, nossa Cat, você tinha que ver aqueles braços. – ela mordeu os lábios e encarou a sua frente, como se estivesse repassando toda a cena novamente.
Eu ri
- Tenho certeza de que são “de matar” se é que me entende.
Ela caiu na gargalhada – Nossa, você é péssima em trocadilho, tinha que parar de tentar fazer isso Cat.
Nós estávamos rindo uma sobre a outra quando Isabela se aproximou, e me contou a pior coisa que eu poderia ouvir em toda a minha vida.
- Catarina, posso falar com você um minuto? – Ela parou em pé na nossa frente.
- Claro Isabela, o que houve?
Ela abaixou o olhar.
- Clara, eu vou precisar de você.
Clara olhou para mim e depois a encarou
- Sim pode dizer, aconteceu alguma coisa?
Isabela se sentou ao meu lado e pegou minha mão, todo aquele suspense e atitude dela, estavam mandando arrepios por toda a minha espinha.
- Catarina, eu não trago uma notícia boa, na verdade...Você vai ter que ser forte. Muito forte.
- Isabela, o que aconteceu? Você está me assustando.
- Catarina, sua mãe...Ela morreu. Eu sinto muitíssimo, nós fizemos de tudo para protegê-la e achamos que tirando você de lá, ela estaria em segurança novamente, mas...Não saiu como esperado, as pessoas acham que foi um acidente de carro, mas na verdade...Meu deus, foi obra de Carlos.
Ela ficou em silêncio por alguns minutos, e eu não disse nada. Eu não simplesmente não sabia mais como falar, eu não conseguia nem respirar, quer dizer minha mãe morta? Minha mãe? Que fazia bolo de cenoura com cobertura de chocolate e deixava eu me lambuzar inteira e sempre me dava um pedaço escondido de todo mundo antes do bolo ficar pronto. Minha mãe que segurou minha mão o tempo inteiro quando eu quebrei o meu braço e achei que aquela fosse a pior dor da minha vida. A minha mãe que cantava para eu dormir quando eu tinha pesadelos. A minha mãe que eu amava e que dormiu no hospital quando eu sofri o acidente, sem sair do meu lado um minuto. A minha mãe que nunca me abandonou. Meu deus, isso não podia estar acontecendo ela não pode ter morrido, é a minha mãe!!
A minha mãe linda, e instável, e maluca, e que adorava gritar e tacar pipocas em mim e na Clara, quando ela queria ouvir a tv e nós ficávamos tagarelando.
A mesma mãe que eu abandonei achando que estava protegendo ela, todo esse tempo eu tenho me segurado, me impedindo de voltar e correr para os braços dela, tenho me agarrado ao fato de saber que se eu voltasse ela estaria em perigo, e agora de que serviu tudo isso? Se na hora que ela mais precisou eu não estava lá? E minha irmã? Meu deus! Minha irmã!
- Isa...Minha irmã? Minha irmã? Onde ela está? – Meus olhos arregalados e úmidos, pelo meu corpo todo o desespero enviando um nó pela minha garganta me impedindo de pronunciar qualquer coisa.
- Ela está bem Catarina, ela não estava com a sua mãe, Graças aos céus, ela estava com a mãe da Clara, e agora ela está cuidando dela.
Ainda bem, por um momento uma onda de alívio como nenhuma outra ultrapassou pelo meu corpo, minha irmã estava viva, minha irmãzinha, está bem.
Mas a ideia de nunca mais ver a minha mãe, estava me sufocando, eu precisava gritar, mas não tinha voz, eu precisava sair correndo, eu precisava da minha mãe comigo, gritando falando para eu abaixar a música, ou falando sobre o quanto eu estava atrasada e como ela seria chamada no colégio se eu continuasse assim.
Eu me levantei e caminhei cambaleante, minha visão turva e embasada, eu não conseguia ver muito bem nada que estava a minha frente, eu caminhei. Só caminhei, sem direção, só andei tropeçando nos meus próprios pés.
Minha mãe tinha morrido, e com ela se foi toda a humanidade e esperança que ainda restava em mim. Eu estava sozinha.



domingo, 23 de outubro de 2011

Capítulo 23 - Cicatrizes

Plumb - Cut

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E estas cicatrizes não seriam escondidas assim
Se você me olhar apenas nos olhos
Eu sinto solidão e frio aqui
Embora eu não queira morrer
Mas o único anestésico que me faz sentir bem, mata por dentro
(Cut – Plumb)

Eu adormeci mais rápido do que pensei que fosse possível, quando acordei o sol que me banhava pela janela já estava forte, o que significa que já devia ser a hora do almoço.
Me sentei devagar, porque assim que comecei a me levantar minha cabeça aparentava ter uma tonelada presa a ela, e doía como se eu tivesse batido com ela diversas vezes o que na verdade faz algum sentido levando em conta a tortura que eu passei. Assim que esse pensamento me vem a cabeça o afasto, eu não posso lembrar daqueles momentos, e nem quero.
Quando consigo retomar a consciência por completo Clara irrompe pelo quarto como um turbilhão e se joga em cima de mim, nos primeiros minutos eu não consigo entender nada do que ela diz, primeiro porque eu mal consigo respirar com ela me apertando e segundo porque ela fala tudo tão rápido que eu só consigo entender as palavras: maluca e preocupada.

- Calma Clara, eu estou bem agora... – ela me interrompe com mais um turbilhão de palavras – Meu deus Clara eu não consigo respirar!
Nesse momento ela sai de cima de mim, e senta ao meu lado.
- Você tem noção de como eu fiquei preocupada com você? Você é maluca ou o que para sair da ordem assim? É ordem o nome disso aqui não é? Enfim... O que aconteceu Cat?
Ela me encara, os olhos duas bolas que parecem querer saltar das orbitas, e a sua volta um roxo mais forte do que de costume o que indica que ela não dormiu.
- Eu... – A verdade era que eu não sabia como dizer isso para Clara porque eu ainda não tinha dito nem para mim mesma, tudo aconteceu muito rápido e ao mesmo tempo, e enquanto eu estava sendo torturada eu meio que estava sem tempo para pensar em minha transformação quando eu estava gritando de dor. – Eu não sei Clara, eu ainda não tive muito tempo para pensar sobre isso.
Ela me encarou
- Sobre o que Cat? O que aconteceu?
- Eu... lembra quando eu sai daqui dizendo que ia procurar a Hevi? – ela assentiu – Então, eu cheguei ao escritório de Henrique e ouvi uma conversa entre ele e uma espécie de médico eu não sei ao certo, falando sobre minha transformação... – eu fiquei em silencio, os olhos dela lentamente se arregalando quando ela começa a entender o que isso significa.
- Como assim? Você vai...? – ela não termina a frase.
- Pelo o que eu entendi isso está no meu gene, e eu vou entrar em transição a qualquer momento.
Ela vira o rosto e começa a encarar o nada. Pela primeira vez eu vejo a Clara sem fala, o que acredite em mim não é comum se tratando dela e essa atitude me deixa mais nervosa do que eu estava.
- Clara, pelo amor de deus fala alguma coisa!
- Ah! – ela se vira para mim – Hum... Mas Cat... Eu não sei como dizer isso da forma fácil, então lá vai... Você já não imaginava isso? Quer dizer, você está morando em uma ordem de vampiros, com a sua mãe e seu pai vampiros, e está apaixonada por um vampiro, Meu deus! Qual parte você perdeu? Porque até onde eu entendi você não vai ter uma vida normal Cat, não mais... Então, se você quiser ficar perto dessas pessoas, esse é o único caminho!
Eu encarei o nada e comecei a brincar com a linha do lençol. Como eu poderia explicar para ela que o problema não é a transformação em si, quer dizer é claro que na hora foi um susto, apesar de tudo eu não tinha pensado nisso, mas a Clara tem razão se eu quero conviver com essas pessoas esse é o único caminho, mas o problema é que eu posso não sair viva, isso tirando a parte que vai ser altamente doloroso.
Eu fiquei em silêncio, até que a Clara o quebrou com o mesmo costume de sempre de ler minhas expressões e saber quando algo está realmente errado.
- Cat, agora me fala, qual é o real problema nessa história? Do que você tem medo?
- Eu ouvi a conversa deles Clara, e a questão é que ... – eu não consegui dizer, as palavras simplesmente estavam presas na minha garganta. – Eu... Eu posso... A questão é que eu posso não sair viva Clara! Pronto! Esse é o problema eu posso morrer, e segundo eu ouvi vai ser extremamente doloroso!
Nesse momento a Clara me puxou para perto dela, e me abraçou. Nós ficamos assim por um bom tempo, respirando fundo e abraçadas.
Quando eu me afastei, ela olhou no fundo dos meus olhos.
- Cat, agora me escuta – ela fez uma pausa conferindo se eu estava prestando atenção – Vai ficar tudo bem, eu vou estar do seu lado, e nós vamos dar um jeito entendeu?
Eu assenti.
- Clara? - Ela me encarou
-Sim?
- Eu vou tomar um banho, será que eu posso ficar um pouco sozinha? É que aconteceu tanta coisa, eu preciso colocar os pensamentos no lugar – eu forcei um sorriso.
- Claro, mais tarde eu venho te chamar para nós irmos andar a cavalo que tal? – ela sorri e levanta da cama do seu jeito animado.
- Claro.

Assim que Clara sai do quarto eu me levanto e vou em direção ao banheiro, quando paro na frente do espelho, eu quase dou um pulo de susto. Minhas roupas estão sujas de sangue, apesar de quase todas as feridas já terem curado.
Parada ali, toda suja de sangue uma onda de nojo, medo, e outros tantos sentimentos me vêm ao mesmo tempo, imediatamente eu ligo o chuveiro e entro embaixo dele.
Chorando e soluçando, eu começo a colocar para fora todas as lágrimas que não me vieram antes, toda a dor que eu senti, toda a solidão, todos os sentimentos de uma vez, a saudade de casa, o medo do que vai acontecer, a tortura, a dor pelo Pedro, tudo ao mesmo tempo. Sem que eu perceba eu pego uma esponja e começo a esfregá-la pelo os meus braços e pernas. A água vermelha suja de sangue tomando conta do box, e me fazendo sentir mais nojo ainda de mim mesma. Eu estava imunda, suja, e essa sujeira, esse sangue parecia simplesmente não querer sair, como se estivesse impregnado na minha pele para me lembrar de tudo o que eu passei.
Eu consigo ouvir passos no quarto, mas não dou ouvidos, agora que eu deixei toda a dor vir a tona, todas as lágrimas e sentimentos diversos eu não posso mais controlar, só me resta esfregar e chorar.
Eu continuo esfregando e o sangue parece não sair, uma onde de raiva toma conta de mim, e eu escuto um grito, eu estou tão tomada pela raiva, pela dor que quase não percebo que o grito saiu dos meus lábios até que eu olho para baixo e percebo que eu estou me arranhando, meus braços agora com cortes finos feitos pelas minhas unhas, e escorrendo sangue.
Quando vejo aquele sangue todas as lembranças me voltam a mente, os dois capangas de Carlos me cortando e me queimando, e antes que eu perceba meus braços estão caídos e eu estou abaixada com a cabeça entre as pernas, eu não escuto nada só a água caindo e os soluços do meu choro.
Eu fico assim por um tempo, até que eu escuto alguém gritando o meu nome.
E sem que eu precise olhar eu já sei quem é, eu reconheceria essa voz em qualquer lugar, qualquer tempo. Pedro.
Ele irrompe pelo box, me levantado e me sacudindo.
- Catarina? Meu deus está tudo bem? – Ele me olha nos olhos, mas eu não posso olhar para ele, não nesse estado, não quando eu estou deixando todas as minhas emoções virem a tona, se eu o olhar agora eu não vou aguentar.
- Não. –É o máximo que eu consigo dizer, minha voz sai baixa, nada além de um sussurro, quando eu sei que não, nada está bem, e não sei dizer quando vai ficar, ou se um dia irá ficar bem de novo.
Quando ele me olha de cima a baixo e vê os arranhões, ele me puxa para perto dele, me aninhando a ele, e sem poder mais resistir eu me agarro a ele e deito minha cabeça em seu peito, tão perfeito, como se fosse feito exatamente para me abrigar. E volto a chorar, o choro agora mais intenso do que antes.
Pedro não falou nada, só me apertou com força e alisou meus cabelos, separando mecha por mecha, beijando minha testa.
Por fim, quando as lágrimas pararam de cair, e tudo o que restava era minha respiração alterada, ele cortou o silêncio.
- Vai ficar tudo bem Catarina – foi tudo o que ele disse, mas de alguma maneira ouvir isso dele, foi melhor do que qualquer coisa, de alguma maneira quando ele disse isso, ele quase me fez acreditar, pelos poucos segundos em que eu ouvi sua voz o alívio tomou conta de mim, mas não posso mentir para mim mesma, não posso me agarrar em um amor que não me pertence, um amor que já foi meu, mas isso foi a muito tempo, em outra vida. E agora eu estou sozinha. Pelo menos por dentro.
Esse pensamento me fez me encolher mais em seu colo, e apertá-lo com mais força, por mais que eu saiba que não posso tê-lo, eu insisto em não conseguir deixá-lo ir, eu simplesmente perco o ar só de imaginar não vê-lo, não ver seu sorriso, ou ouvir suas piadas sarcásticas, ou até mesmo suas evasivas, e suas mudanças de humor repentinas.
Mas, como tudo na vida existe sempre o “porém”, aquele porém que te faz se encolher e chorar a noite, que faz o um nó se forma em sua garganta, e te faz querer gritar e implorar para alguma força maior te escutar e fazer isso passar.
O mesmo porém que sempre volta para me lembra que o máximo que eu posso ter é isso, esses momentos aninhada em seu colo, esses poucos minutos junto dele, e que depois tudo vai voltar a ser como é, nós dois amando sem poder amar.
Eu me afastei de Pedro e me levantei.
- Hum... Eu acho que vou tomar um banho de verdade agora – Eu falei ainda sem olhá-lo, eu não posso olhar para ele, não quanto tudo dentro de mim ainda está tão instável. – Obrigado Pedro.
No momento em que eu falei o seu nome, um nó se formou em minha garganta, e uma dor se instalou no meu peito como se eu tivesse levado um soco.
- De nada, eu acho que devo ir agora, você tem certeza que vai ficar bem? – Ele ameaçou pegar minha mão, mas eu me afastei, eu não posso me permitir provar mais dele, porque como tudo em relação a ele uma vez que eu provo eu me sinto tão entorpecida, tão embriagada com o seu toque e o calor que emana do seu corpo que eu não consigo deixá-lo ir.
Eu somente assenti, ainda sem olha-lo.
- Tudo bem então, tchau Catarina. – Com um sopro de vento, ele se foi, levando com ele toda e qualquer paz que ainda havia dentro de mim, levando embora o alívio que poucos minutos em sua presença me proporcionou, e me deixando apenas com a dor e um nó na garganta que insistia em me deixar sem ar, mas de alguma forma eu consegui sorrir porque pelo menos a dor era uma prova de que ele esteve aqui.