quarta-feira, 11 de abril de 2012

Capítulo: Apagão

Coldplay - Coldplay - The Scientist

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Gritei até que minhas veias explodissem
Esperei o tempo passar
Agora tudo que eu faço é viver com esse destino
Eu quis isso, reclamei daquilo
Deixei pra trás esse pequeno detalhe
(Slipknot - Duality) 


 
Eu e Clara iríamos nos atrasar de novo, ela não perdia essa mania, sempre inventava de passar rímel no exato momento em que tínhamos que sair para ir pra escola. Suspirei.
- CLARA! Vamos! Eu vou te deixar em casa, vem logo!
Clara desceu correndo e tropeçando pela escada.
- Desculpa se uma menina quer ficar bonita. - ela disse com aquele sorriso debochado no rosto.
- Aham, ta bom Afrodite agora vamos.

Na escola estava tudo praticamente igual, esse era o nosso último ano e já estávamos no meio do ano letivo, toda a pressão das universidades sobre as nossas costas, as notas do último ano tinham que estar impecáveis caso eu quisesse ser aceita em alguma faculdade, sem falar no Enem, eram tantas coisas e ainda por cima esse mal estar que eu vinha sentindo de um mês pra cá, em um minuto eu estava bem, e no outro eu estava totalmente fraca como se estivesse com anemia, ou algo do tipo, e agora as dores de cabeça vieram, mas não são simples dores de cabeça são dores fortes que me fazem querer me abaixar e me encolher até que passe, isso estava começando a me preocupar, mas eu não queria causar pânico atoa, com certeza era só resultado de todo esse estresse, então na frente das meninas e da Cláudia mãe da Clara eu tentava disfarçar, mudava de assunto, dizia que era normal, que era a TPM ou qualquer outra coisa fútil. Elas estavam ficando desconfiadas.
Sai da escola correndo, eu tive que ficar até mais tarde no laboratório e estava atrasada para o curso. É outra novidade, eu estava tendo aulas de francês a um ano mais ou menos, e já conseguia conversar quase fluentemente, eu não entendia, mas eu tinha uma facilidade com o francês, era simples pra mim, às vezes palavras em francês surgiam na minha mente do nada, depois de um tempo eu percebi que isso devia ser resultado de alguma experiência da Katherine, bom pelo menos essas experiências estavam me ajudando no curso, o que já servia pra alguma coisa.
Cheguei em casa quase na hora do jantar, subi direto para o quarto, a sete meses a Cláudia tinha reformado a casa, fazendo com que agora cada uma tivesse um quarto individual. Depois de tomar um banho eu desci.
Quando entrei na cozinha, a Cláudia me olhou de cima baixo, ela agora estava com essa mania, pelo visto ela tinha o mesmo sentido de superproteção da minha mãe, e desde que eu vinha tendo esses "probleminhas"- era como eu chamava quando falava com a Cláudia - ela tinha passado a me observar muito mais.
- Catarina, o que você acha de nós irmos à clínica amanhã? hein? - ela sorriu gentil e me empurrou gentilmente para que eu sentasse na mesa - o doutor César, é um ótimo médico, eu tenho certeza que ele vai poder dizer o que você tem.
- Eu não tenho nada Cláudia, pode ficar tranquila, eu já disse.
Ela me olhou série e arqueou a sobrancelha.
- Cláudia - agora eu disse mais calma, com a voz um pouco mais doce - é que agora tem muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, é muita pressão, são as notas, o último ano, as universidades, o exame do Enem, e isso tudo somado ao curso, eu só estou com muito estresse, só isso não é nada com que você deva se preocupar, é sério. - eu sorri, ela me olhou com preocupação, mas se rendeu, pelo menos por enquanto - Agora me diz o que você fez para janta? O cheiro está ótimo eu estou sentindo lá do meu quarto.
Ela sorriu
- Eu estou fazendo macarrão com ravióli regado ao molho branco, aprendi essa receita a pouco tempo na tv, e decidi experimentar.
- Huum.  Mal posso esperar cadê a Clara?
- Está no banho, já está descendo e a Aline está vendo desenho.
- Ah sim.

O Jantar foi animado, como todos, simplesmente se sentar a mesa com Clara e Cláudia juntas era hilário, depois que fui morar com Cláudia eu descobri de quem a Clara puxou o senso de humor, elas eram simplesmente incríveis, você não conseguia ficar sem rir por cinco minutos.
Depois do Jantar eu recolhi os pratos, mas quando fui colocá-los na pia a dor de cabeça voltou, mas dessa vez diferente, muito mais forte, os pratos escorregaram da minha mão, e eu caí gritando.
De longe eu pude ouvir os gritos da Cláudia e da Clara, correndo para me socorrer.
- Meu deus, Catarina você está bem? Meu amor fala comigo, ta tudo bem?Clara, corre e pega minha bolsa, eu tenho uns comprimidos pra dor, e eu vou telefonar para o Drt. César. Vai rápido Clara!
A dor foi cedendo aos poucos, e eu fui voltando à realidade, minha vista estava embaçada e eu estava um pouco lenta, então não conseguia entender direito o que a Cláudia estava falando, ela falava muito rápido.
- Ca-Calma Cláudia eu to bem, ok? Foi só um desmaio, deve ter sido por causa do sol, eu fiquei muito tempo no sol hoje na educação física, e devo ter comido algo estragado, enfim. Não se preocupe. - eu disse tentando me levantar, e pude perceber agora que eu estava no colo de Cláudia, que estava agachada no chão da cozinha, com os olhos cheios d'água.
Clara me ajudou e eu consegui ficar de pé, as duas me levaram para o meu quarto, e eu deitei.
- Chega Catarina, eu já liguei para o Drt. César e marquei uma consulta pra você na sexta, então durante a semana você fica tomando esses comprimidos, e na sexta de manhã nós vamos ao médico, entendeu?
- Mas não é necessário Cláudia eu to bem, eu disse foi só...
- Mais nada Catarina, eu já disse você vai ao médico e pronto.
- Tudo bem - eu estava cansada demais pra ser teimosa.
- Eu vou deitar, qualquer coisa é só me chamar ouviu? - ela beijou minha testa - Durma com deus meu amor.
- Obrigada, boa noite.
Ela sorriu e saiu do quarto, durante todo esse tempo a Clara estava sentada na poltrona me olhando sem dizer nada, eu podia dizer pelos olhos dela que ela estava desconfiada de alguma coisa, e que estava matutando sobre isso.
- Ok, Clara chega de mistério, o que foi?
- Hã? O que você disse? - ela disse despertando de um transi.
- Eu disse chega de mistério, o que foi? O que tanto você pensa?
Ela se levantou, sentou do meu lado e pegou minha mão.
- Cat.. - eu sabia pelo modo que ela estava falando, que ela iria romper o acordo de assunto terminantemente proibido, era assim também quando ela falava da minha mãe - você.. Você está doente amiga.
- Eu.não.estou.doente! Meu deus, quantas vezes eu vou ter que repetir, então nossa eu estou com muita dor de cabeça e desmaiei por causa do sol, isso não é doença.
- Cat, para com isso, não foram só umas simples dores de cabeça, e não foi só um desmaio. Cat você caiu no chão gritando de dor e desmaiou, você acha que eu não vejo quando você chega tão fraca que nem janta e vai para o quarto, é porque você não se vê, mas você às vezes fica parecendo um zumbi amiga, alguma coisa está errada, e você sabe disso, só não quer me contar, e isso me assusta porque eu fico pensando o quão pior isso pode ser e você está escondendo.
Eu abaixei os olhos, eu não sei por que eu ainda tentava, eu nunca consegui esconder nada da Clara.
Ela continuou
- Cat? Você.. Você se lembra sobre o que o Henrique disse?
- Eu não quero falar sobre isso, e não eu não lembro, olha Clara está tarde e eu estou cansada, amanhã a gente conversa está bem?
- Não, vamos conversar agora, e você não vai mais fugir do assunto, você lembra o que ele disse sobre a sua transformação Cat? Sobre como iria parecer que você estava doente, e sobre como seria doloroso? Eles disseram que conseguiram adiar, mas não disseram que tinha terminado Cat, você sabe disso, e já se passou tanto tempo, quase dois anos Cat e você esteve bem todo esse tempo, o que é muito mais do que esperávamos, eu só me pergunto se, e se sua transformação está se aproximando, e seja isso o motivo dos desmaios e todas essas dores?
Eu não disse nada. Eu já tinha pensado sobre isso, mas tinha rejeitado essa ideia, eu sabia que um dia isso iria acontecer, mas eu estava lutando contra isso, tentando esquecer, tentando fingir que algo havia mudado e que eu iria continuar a mesma, e que.. Eu iria viver.
- Eu não sei Clara, mas se fosse mesmo a transformação eu estaria muito pior, eles disseram que seria altamente doloroso, e até agora tudo o que eu senti foram dores de cabeça, e tive um desmaio, eu não acho que isso se encaixe em altamente doloroso, e de qualquer forma eu ainda sou humana, tenho fraquezas humanas, como me expor muito ao sol, e estresse e não posso toda vez que eu tiver uma dor de cabeça, ou vomitar sei lá, colocar a culpa em uma transformação vampírica que nunca veio, então vamos encerrar o assunto ok? - eu mudei de posição e fechei os olhos.
- Tudo bem amiga, boa noite. - ela me deu um beijo e saiu do quarto.

Eu esperava sinceramente que não fosse à transformação, quer dizer eu não podia contar a Cláudia o que estava acontecendo, e se fosse ruim do jeito que eles haviam dito, não teria como eu esconder dela, e passar por tudo isso seria muito difícil, ainda mais sabendo qual seria o final, eu não aguentaria, e elas ficariam despedaçadas e cansadas depois de todo esforço, e de qualquer forma, o que eu alegaria para os médicos? Que eu sofria de uma transformação vampírica, por ser a reencarnação de uma vampira de verdade? E o que eles poderiam fazer? Nada. Será que eles iriam diagnosticar alguma doença ou confundirem essa transformação com uma? Se eles diagnosticassem, seria pior? Passar por vários tratamentos, vários exames, e todos não resultarem em nada.
Eu estava cansada, com medo, e não sabia o que fazer... Que grande combinação.
Se a transformação tinha começado, eu não podia fazer nada para impedi-la, o máximo que poderia fazer era esperar e me despedir de todos.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Prólogo - Blood and Thunder


Isabella:

Um ano havia se passado. Eu não tinha notícias da Catarina mais do que o Henrique me contava, que estava tudo bem, que ela parecia estar feliz, e que o mais importante ela estava segura, mas eu não conseguia ignorar o fato de que daqui a alguns meses ela vai se transformar, e isso infelizmente no caso dela implica em... morrer. É claro que eu tinha fé, ela vai sobreviver, ela é forte, saudável e esse é o destino dela.
Destino. Essa palavra trouxe a lembrança da conversa que ela e Henrique tiveram com a bruxa semana passada, ela tinha vindo avisar o "destino" da Catarina, essa palavra estava se repetindo demais ultimamente, e isso nunca é bom sinal, as lembranças começaram a voltar, e ela se lembrou da expressão da bruxa ao contar sobre a profecia para ela.
- Ao que devo a honra da sua visita? - Henrique se levantou de trás de sua mesa, e parou ao lado de Isabela.
A bruxa se aproximou e parou pouco a frente deles.
- Eu venho informá-los que o destino de sua filha foi decidido.
- O destino de minha filha? - Henrique respondeu com desdém - E o que exatamente foi decidido?
- Ela é uma "Helrem", e eu não preciso lhe explicar isso preciso?
Henrique se sentou, ele estava atônico, aquilo não poderia estar acontecendo, não com sua filha, não agora quando ele a tinha de volta.
- O que.. O que vai acontecer com ela? - foi o máximo que conseguiu dizer, sua voz agora quase um sussurro aranhava sua garganta.
- Você sabe o que vai acontecer você é tão velho quanto eu Henrique e estava aqui das últimas duas vezes em que uma Helrem foi escolhida, e em uma das vezes você observou de perto não foi? Qual foi a última? A irmã de seu pai, se não me engano.
Henrique abaixou a cabeça, aquilo tinha sido a tanto tempo, e aquelas memórias não eram as suas prediletas.
- Enfim, eu vim dar o aviso porque nós temos um acordo de paz - a voz dela implicou um desgosto ao dizer a última palavra - e sendo assim devo informá-lo quando uma decisão dessas é tomada, ainda mais envolvendo a sua filha.
- Mas e se ela morrer na transformação?
- Então outro Helrem será escolhido futuramente, mas sua filha tem um destino a cumprir Henrique e você sabe disso, muito dificilmente essa transformação irá matá-la, agora que a decisão foi tomada sua filha provará de poderes que nunca imaginou, e seu corpo será forte como nunca antes, forte o bastante para transformação.
- Mas ela irá ficar maligna como você e sua espécie. - a voz de Henrique agora era um rugido, toda a fúria depositada em suas palavras.
A bruxa se aproximou calmamente, como um leopardo ao atacar sua presa, seus olhos eram dois diamantes negros e fundos como o abismo, a ameaça implícita em cada gesto.
- Não ofenda meus irmãos em minha presença, eu não irei tolerar esse tipo de coisa, e sim talvez sua filha fique idêntica a nós, ou talvez ela continue com a mesma "personalidade" por assim dizer, a mudança virá isso é claro, mas se ela irá tender para o nosso lado, isso só ela poderá nos dizer no futuro.
- Então ela tem uma chance? - o alivio banhava Henrique como uma água morna depois de dias em um inverno pesado.
- É claro que tem todos nós temos não é? Mas os poderes farão parte dela, e ela não será mais a mesma com o tempo, mas se ela terá características nossas fortes o bastante para defini-la, isso irá depender somente dela.
- Entendo. Muito obrigada pela sua visita, e tenha uma ótima noite.
- Não é nada, uma ótima noite a você também, e faça seus preparativos, sua transformação é menos perigosa, mas o risco ainda existe e sua mudança será ainda mais dolorosa. - ela fez uma pequena reverencia - Isabella. - disse se despedindo - Boa noite.
- Obrigada pela visita - disse Isabella
A bruxa sorriu, e partiu.
Depois disso Henrique tinha lhe prometido que tudo iria ficar bem, que a Catarina era boa, era a filha deles, e que ela não iria deixar que o mal a ganhasse quando a hora chegasse, mas ainda sim o risco, e saber da dor que a filha iria passar, toda essa ideia estava martelando e tirando o sono de Isabella por todo esse tempo. Catarina teria que ser forte como nunca antes em sua vida, tempos devasto estavam a caminho. E a dor era só o princípio.

Blood and Thunder




 O Despertar 

O tempo passa. Mesmo quando isso parece impossível. Mesmo quando cada batida do ponteiro dos segundos dói como o sangue pulsando sob um hematoma. Passa de modo inconstante, com guinadas estranhas e calmarias arrastadas, mas passa. Até para mim.
(Lua Nova)

segunda-feira, 19 de março de 2012

Capítulo 27 - Abismo

Evanescence - The Last Song I'm Wasting on You.MP3

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E eu sei, eu sei que terei que assistí-los ir embora
Simplesmente aguentar esse dia
Desista do seu caminho, você poderia ser qualquer coisa
Desistir do meu caminho e me perder, hoje não
É culpa demais pra carregar [...]
E me odeie se te faz sentir bem
Eu não consigo mais ouvir seus gritos 
(Evanescence - The Last Song I'm Wasting on You) 




No Aeroporto, nos despedir da Hevi foi muito complicado, eu a abracei,  me virei e fui em direção ao embarque. Eu não suporto despedidas, eu não sirvo pra isso, por isso muita das vezes eu demonstro ser fria, mas na verdade essa sou só eu dizendo que vou sentir tanto a sua falta que não consigo me despedir então eu só saio fingindo que nada aconteceu. Bizarro como em um segundo, com apenas uma frase toda a minha vida mudou, indo de complicado para um caos eminente - soltei um riso nervoso - tantas despedidas, tantas lágrimas, que ainda viriam e que já tinham sido derramadas... E depois de tudo isso só pude tirar uma conclusão, eu estou me tornando cada vez melhor em reprimir coisas ruins, como saudades, crises nervosas onde você chora de soluçar até não aguentar mais, o medo, e o pior de tudo a dor, a dor eu aprendi a confortá-la e congelá-la dentro de mim, eu confesso que ela tomou grande parte de mim, mas não há outro jeito se não aceitá-la, e reprimi-lá para o mais fundo que puder.

Quando chegamos no aeroporto, a mãe de Clara já estava esperando por nós, fomos direto para sua casa, a Aline minha irmãzinha estava dormindo, nós chegamos bem pela manhã, pude ver que a morte de minha mãe afetou claramente a mãe da Clara, afinal as duas eram melhores amigas desde a faculdade, olheiras se destacavam ao redor dos olhos claros e cansados dela. Porque a vida tem que ser feita de tantas perdas e "por quês?", tão complicada e complexa? eu sinceramente não entendia, e a essa altura não me importava mais encontrar qualquer resposta, eu fiz o que tinha que fazer, e agora tenho que seguir com a minha vida.

Quando entrei no quarto de Clara, meu coração se afundou ainda mais olhando para minha irmã deitada, tão frágil, tão machucada, seu rosto dormindo não era relaxado e tranquilo, era dolorido e assustado, e ver isso fez com que a dor que eu estava reprimindo quase viesse a tona, mas eu precisava ser forte, forte por ela, e pelo o que eu teria que enfrentar.
Fui me sentar na cama ao seu lado e beijei sua testa, ela se virou e me olhou, piscou várias vezes como se imaginasse que estava sonhando, e depois se jogou no meu colo.
- É você mesmo Cat? Você está mesmo aqui? - eu podia ouvir os soluços na sua voz, meu deus minha irmã estava quebrada, isso não era justo, ela não merecia uma dor desse tamanho na idade dela.
- Claro meu amor, eu estou aqui, agora relaxe está tudo bem, eu estou aqui e não vou partir mais, não vou sair do seu lado, agora somos eu e você. - Aline me abraçou ainda mais apertado e deitou sua cabeça sobre o meu ombro.

Eu acariciei seus cabelos, e cantei a canção de ninar que nossa mãe cantava para nós, depois de alguns minutos ela já estava dormindo de novo.
Depois de botá-la na cama, tomei um banho, arrumei minhas coisas no quarto de hóspedes onde eu iria dormir com a Clara, achamos melhor deixar o quarto dela para minha irmã, ela vivia tanto na casa da Clara quanto eu, e pensamos que seria bom que ela dormisse em um lugar familiar, onde ela se sentisse bem, e estivesse acostumada.

Eu não quis almoçar, não estava com fome, fui para parte de trás da casa, me sentando no quintal da Clara, para olhar o céu, estava nublado.
Depois de alguns minutos, me vi reconhecendo rostos nas nuvens e desviei os olhos no mesmo instante, eu sabia que rosto veria constantemente se continuasse, e eu estava reprimindo ele também, principalmente ele.

Aline se aproximou e se deitou do meu lado.

- Tudo bem? - ela se aconchegou, deitando em cima da minha barriga.
- Tudo e como você ta Aline? - eu perguntei, alisando seu cabelo.
- Eu adoro o tempo nublado, cinza é uma cor bonita - ela disse, desconversando o assunto anterior.
- Aline?
- Sim?
- Você ta bem?
- Estou, e você?
- Acho que sim... Eu vou sentir falta dela.
- Eu também, mas pelo menos eu posso vê-la todos os dias de novo... Pensando bem eu acho que só gosto do tempo nublado de dia.
- Por quê? Como assim vê-la todos os dias? - Arquiei as sobrancelhas
- Por que ela virou uma estrela agora, eu a vi ontem, era a que mais brilhava no céu, e as outras pareciam brilhar de volta para ela, ela devia ter contado uma piada por que elas pareciam estar rindo, e provavelmente dela e não da piada - nós rimos juntas.
- É... ela não era muito boa com piadas.
- E com o tempo nublado, não da pra ver as estrelas, então eu espero que fique assim só até o sol ir embora, e depois eu vou poder ver a mamãe de novo. - ela sorriu. E nesse instante eu percebi, ela iria ficar bem.
- É verdade, então é melhor nós torcemos os dedos, e contar até dez bem apertado pra poder realizar - Minha mãe dizia que se você desejava uma coisa era só fazer isso que acontecia, mas pelo visto não deve funcionar com a morte.
- Você tem razão, torce bem apertado Cat, até ficarem roxos - ela riu.
- Pode deixar.

Ficamos ali por mais algumas horas e depois entramos para tomar café, fizemos uma bagunça na mesa quando tentamos fazer um bolo, e a mãe da Clara nós fez ficar limpando a cozinha até a hora do jantar, e depois do jantar Aline dormiu e eu e Clara ficamos conversando até tarde como típicas adolescentes, mas como se aviso estivesse no ar, ela não tocou em nenhum assunto que envolvesse a palavra com "v", esse assunto estava permanentemente proibido.

E depois os dias seguiram normais, sem nada de especial, a mãe da Clara tinha assumido nossa guarda, e estavamos morando oficialmente com ela agora, no dia seguinte eu fui a escola com a Clara para refazer nossa matrícula, na semana seguinte já tinhámos voltado a escola, e assim a mesma rotina de sempre, ou quase, é claro que o buraco estava ali, nada de gritos da minha mãe de manhã - só os da mãe da Clara - nada daquele olhar dela quando tinha que me dizer não, mas não aguentava a minha carinha de cachorro molhado quando eu pedia algo, nada de tortas especiais, nada da canção de ninar - mas eu ainda cantava para Aline todas as noites -  enfim, nunca seria o mesmo, isso era óbvio, mas pelo menos estávamos nos saindo bem até agora, a Aline parecia estar feliz, e aquele rosto assustado enquanto dormia, com o tempo ia desaparecendo, e a tranquilade e paz voltaram, fazendo-a parecer um anjo.

Se passou um mês, dois, três... e assim por diante, estávamos quase no final do ano letivo, tinhámos por algum milagre conseguido nos recuperar nas matérias, e tinhámos boas chances de passar, durante todos esses dias não houve um sequer em que eu não tenha pensado nele, em que eu não tenha sonhado com o sorriso dele, com o som da sua risada, seu hálito frio sobre a minha pele, ou o seu beijo. Todos os dias se passavam lentamente, se arrastando como se cada segundo fosse um lembrete do que eu tinha perdido, da metade de mim que vagava por ai e que eu sabia que nunca conseguiria repor. Algumas vezes, eu via por um vislumbre uma sombra me observando, no começo isso estava trazendo o pânico a tona, me fazendo ficar alerta o tempo inteiro, e isso acabou comigo por um tempo, mas depois eu passei a me acostumar e depois ignorar, até que eu parei de perceber, ou eu percebia e interrava isso tão fundo que eu nem mesmo me dava conta. Henrique tinha me avisado que estaria vigiando, e não posso negar que ao mesmo tempo em que o pânico florescia, a esperança me rasgava mais forte, esperando que em um desses vislumbres eu pudesse ver o seu rosto novamente, mas com o tempo eu desisti, eu sabia que isso não iria acontecer e não havia motivo para ficar alimentando isso, era uma parte da minha vida que eu não podia voltar, e muito menos lembrar, então depois eu fingi me esquecer, de Henrique, do que eles eram, de todos, fingi a ponto de não enchergar vislumbres, e quando enchergava imaginar ser apenas um ser humano normal fazendo alguma coisa e assim por diante, Aline passou de ano como primeira da classe e nós tiramos tantas fotos que eu tenho certeza que a visão dela ficou embaçada por um tempo.

As coisas seguiam para o caminho que tinham de seguir, assim era vida, ela não para, ela não espera, ela segue seu curso como uma correnteza te arrastando junto com ela, te obrigando a aceitar o seu ritmo e a se acostumar com ele, mesmo quando muita das vezes você bata em uma pedra, e se rale nela, o rio continua seguindo, e limpando o sangue que escorre no caminho, cicatrizando, e arranhando de novo, um rio que eu sabia que logo iria despencar em uma cachoeira, e acabar, pelo menos para mim, mas todos os rios despencam não é mesmo? essa era a questão da vida, aproveitar a vista que o rio lhe proporcionava, antes de despencar.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Capítulo 26 - Recomeço

Evanescence - My Heart Is Broken

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Eu não posso continuar vivendo dessa maneira
E eu não posso voltar do jeito que eu vim
Acorrentado por este medo que nunca vou encontrar uma maneira
Para curar a minha alma
E eu vou vagar até os fim dos tempos
Semivivendo sem você 

(My heart is broken - Evanescence)





Depois que Pedro saiu, eu entrei em uma crise de choro, todas as lágrimas e soluços que estavam presos finalmente vieram a tona, fiquei assim por algumas horas até que sem que eu percebesse eu adormeci. Acordei com a Clara sentada ao meu lado me olhando, o sol já estava se pondo o que significa que eu tinha dormido o dia inteiro, mas pelo menos eu me sentia melhor, mais inteira, mais forte, diria até mais adormecida.
Me levantei devagar e me sentei.
- Oi - minha voz ainda estava rouca e eu dei um pigarro.
- Oi Cat, eu sei que é uma pergunta idiota, mas como você está? - Eu podia ver a dor nos olhos da Clara, ela me conhecia bem o suficiente para saber o caco que eu estava por dentro.
- Eu estou.. Eu não sei, não pensei muito nisso ainda.
- Eu passei para trazer o seu almoço, mas você ainda estava dormindo então eu o deixei ali na mesa, ainda está quentinho.
- Obrigada - eu sorri. Não me sai muito bem.
Eu me levantei e fui me sentar na mesa, eu não estava com fome, e meu estômago com certeza estava embrulhado, mas eu precisava colocar alguma proteína para dentro, não sabia até que ponto eu ainda estava sensível, por fora eu me sentia adormecida, simplesmente não sentia nada, mas por dentro eu estava tão frágil, tão quebrada, e de tantas formas diferentes que nesse momento uma única palavra poderia me destruir, e no caso de isso acontecer eu queria ter alguma coisa no estômago pra tentar me manter de pé.
Eu sabia que essa noite seria muito longa.
Depois de comer fui tomar um banho, durante todo o processo Clara não disse mais nada, só ficou quieta folheando um dos meu livros, o que me fez pensar será que meu rosto demonstrava o pânico que eu estava sentindo por dentro? ou ele refletia a frieza do meu corpo? pelo visto a primeira opção é a mais provável, Clara sempre falou o tempo inteiro, não importava o que acontecesse, e hoje ela se calou. Eu suspirei. Silêncio é bom, é calmo, sereno, sem pressa, e tudo o que eu preciso no momento.
Quando estava pentiando o cabelo Clara fechou o livro e se virou para mim, e eu soube que chegará o momento de falar do inevitável, a resposta para aquela pergunta que pairava em minha cabeça. E agora?
- Cat?
- Oi Clara
- Eu...hã...- Nunca vi Clara lutar com as palavras como ela estava fazendo agora, isso elevou um pouco o meu pânico, mas o corpo continuava adormecido, e eu agradeci em silencio por isso. - Cat, eu sei que é tudo muito cedo, mas nós precisamos conversar amiga.
- Pode falar - eu disse me virando.
- Cat, eu sinto muito, muito mesmo e se eu pudesse mudar isso eu mudaria, eu daria qualquer coisa para não ter que ver seus olhos assim agora. - Eu abaixei a cabeça - Mas Cat, nenhuma de nós duas pode mudar o que aconteceu, e mesmo com a dor, você precisa ser forte, e eu sei que você já está sendo forte, como sempre, eu no seu lugar não teria nem um terço do seu controle e você sabe disso, mas ainda sim eu quero que você saiba que eu estou aqui amiga, como sempre estive e sempre vou estar.
- Obrigada Clara - foi tudo o que eu consegui dizer, o nó na garganta voltou me sufocando outra vez. Engoli em seco.
- E eu sei que você está confusa, então eu só quero dizer amiga que vai ficar tudo bem, vamos resolver isso juntas, tomar uma decisão juntas.
- Obrigada Clara, mesmo, mas a decisão já está tomada, não precisa se preocupar, essa noite ainda eu pretendo voltar para o Brasil.
-Cat? Tem certeza?
- É claro que sim Clara, minha irmã não morreu, e eu agradeço com todas as minhas forças por isso, então agora eu não sairei do lado dela, já deixei minha mãe sozinha, não vou cometer o mesmo erro de novo. - eu me virei de volta, recomeçando a pentiar o cabelo.
- Cat, eu sei disso, mas eu também sei o quanto você ama essa família, tem certeza de que quer mesmo se separar deles?
- Clara entenda uma coisa, minha irmã tem a mim, ela tem uma família, eu eu também tenho, ela é minha família agora, e eu não vou deixá-la, ela terá uma infâncil feliz, e saudável, longe de toda essa confusão, ela não tem nada haver com isso, eu causei tudo isso, ela merece ser feliz, ter uma infância normal, e ela vai ter.
- Tudo bem Cat. E... você vai embora hoje?
- Sim.
- Você já conversou com Henrique..? Com a Isabella?
- Não, mas irei informá-los agora, não tem conversa Clara, eu já tomei minha decisão e eu vou embora hoje.
- Tudo bem então, vou ligar para minha mãe e avisar que estamos voltando. - Ela se levantou e caminhou até a porta, antes de sair ela voltou, me abraçou e sussurrou no meu ouvido - Só não deixe de ser a minha Cat, e tudo ficará bem.
Eu retribui o abraço, e beijei sua testa.
- Obrigada.
- Até daqui a pouco então. - e ela saiu do quarto.
Sozinha, eu olhei em volta, o meu novo quarto, com algumas das minhas velhas coisas, parecia representar perfeitamente a confusão que estava minha vida, a mistura que havia sido feita, a junção de uma Catarina humana, com uma Catarina que era a reencarnação de uma vampira e que iria se transformar em uma, e como se isso não bastasse ainda estava apaixonada por um.
Que confusão. E agora ainda por cima estava órfão.
Bem órfão ou não, ela ainda tinha a sua irmã, e a vida dela agora estava em sua responsabilidade, ela já perderá muitas pessoas que amava, e não estava disposta a correr esse risco de novo.

Quando chegou ao escritório de Henrique, ele e Isabella estavam sentados um ao lado do outro, como se soubessem qual seria o assunto da conversa, e não concordassem nem um pouco.
- Oi  - eu me sentei de frente para eles.
- Oi minha filha, como você está? - Isabella foi a primeira a falar.
- Razoavelmente bem, nós precisamos conversar.
- Pode falar minha filha - dessa vez Henrique falou, e me encarou.
- Eu estou voltando para o Brasil essa noite, eu vou cuidar da minha irmã e garanti que ela tenha uma infância feliz e normal, e depois...Eu não sei.
- Catarina, sua transformação está se aproximando você sabe disso. - Henrique vincou a testa.
- Eu sei. - suspirei - Mas não vou deixar minha irmã, me desculpem, ainda mais sabendo que eu posso morrer nessa transformação, eu não posso deixá-la sozinha.
Isabella se endireitou, e fincou a testa, como se a palavra "morte" tivesse mandando um calafrio por sua espinha.
- Catarina, e Carlos? Você não pode simplesmente voltar para o Brasil com essa guerra, não pode ficar desprotegida, voltando você só estaria pondo sua irmã em um perigo maior.
- Assim como se eu ficasse eu colocaria a minha mãe? Bom, parece que um pequeno detalhe como localização geografica não altera muito as coisas. - eu fisse friamente. - Isso não importa, eu só vim informá-los que eu estou partindo, quanto ao Carlos, bom Henrique tenho certeza que você é bom em fazer acordos, e se possível tente manter essa guerra fora da américa do sul, por favor.
Henrique encarou Isabella por um instante e depois assentiu.
- Tudo bem minha filha, se é assim que você deseja pode partir, eu cuidarei de Carlos e o manterei longe de você, e por precaução mandarei alguns guardas para cuidar da sua segurança e da sua irmã.
- Não. Eu não quero nenhum tipo de vampiro, bruxo, seja o que for perto dela, ela vai ter uma infância normal, e não terá nenhum tipo de contato com esse mundo.
- Tudo bem, mas não posso simplesmente lhe deixar lá sem nenhuma notícia, eu mandarei alguns guardas, e darei uma ordem para que fiquem longe de vocês e jamais façam contato, apenas observem e cuidem para que nenhum acidente ocorra.
- Obrigada. - Eu me levantei. - Hum...Foi bom conhecer vocês, éh... - Nesse momento Isabella se levantou e me abraçou, eu não pude resistir e retribui o abraço, eu sabia que era um adeus, eu provavelmente não iria sobreviver a transformação, e como ela era incerta, eu não estaria aqui quando acontecesse, só podia me despedir agora.
Isabella começou a chorar, e quando as lágrimas de sangue começaram a escorrer por seu rosto, ela me deu um beijo e deixou a sala, quando eu estava a ponto de segui-la, Henrique se levantou.
- Espere.
Eu me virei.
- Eu posso sentir suas emoções Catarina, não se esqueça disso, eu sei tudo o que acontece em seu coração, e só tenho um pedido a fazer, não deixe que essa raiva, e esse ódio tomem conta de você, você não é assim Catarina e sabe disso, toda essa frieza não irá tornar nada mais fácil, só irá afastar as coisas que iram lhe trazer alguma felicidade.
- Tudo bem, obrigada. - tentei dar um sorriso a ele, mas a dor que começava a irromper em meu peito não deixou que ele se alargasse a mais do que uma careta, eu me virei e sai.

Quando cheguei ao quarto, Clara já tinha arrumado minhas malas e as delas, o resto das minhas coisas já estavam sendo enviadas de volta para o Brasil, as passagens estavam em mãos, tudo estava pronto.
Hevi nos ajudou a levar as malas até o aeroporto, e quando saimos da ordem dei uma última olhada para o lar que eu havia descoberto e que agora eu abandonava. Uma coisa era certa, a felicidade havia se escondido, e não restara nada a não ser o vazio. E nesse vazio, sopros gelados seriam a única coisa a completá-lo por um bom tempo. 

Capítulo 25 - Adeus

Levi Kreis 01 - I Should Go

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Eu deveria ir 
Antes que minha vontade se enfraqueça
E meus olhos começam a protelar 
Por mais tempo do que deveriam
Eu deveria ir 
Antes que eu perca meu senso de razão
E essa hora tem mais significado do que jamais poderia 
Eu deveria ir 

(Levi Kreis - I should Go )


Eu caminhei tropega, em rumo a nada, eu não conseguia pensar, ou falar qualquer coisa, só uma frase percorria minha mente "minha mãe está morta", é como aquelas notícias que quando você recebe, você começa a rir porque sabe que é impossível, que nunca poderia acontecer, é exatamente isso, não a parte de rir, mas a parte do impossível era exatamente o que estava na minha cabeça agora, eu continuava repetindo para mim mesma, que isso não poderia estar acontecendo, não comigo, não a minha mãe.
Depois de caminhar por alguns minutos percebi que estava de pé em frente ao carvalho, a noite o deixando mais sombrio e trazendo de volta a notícia que estava açoitando a minha mente.
Me deixei cair de joelhos, não tinha mais forças para ficar de pé, não depois de tudo, todo o meu corpo só tinha força para mais um suspiro, as lágrimas percorrendo o meu rosto, e eu só conseguia encarar o carvalho, em um estado catatônico, eu não sabia o que fazer.
Uma brisa passou e pude sentir uma presença atrás de mim, eu não me virei, eu estava perdida em pensamentos, o meu corpo estava funcionando, eu podia ver e ouvir tudo ao meu redor mais não conseguia responder, não conseguia exprimir qualquer reação.
A pessoa que estava atrás de mim se aproximou e se ajoelhou ao meu lado, na luz da lua Pedro estava mais lindo do que nunca, mesma perdida entre medos e impossíbilidades eu não poderia deixar de notar.
Ele puxou o meu corpo para junto ao dele, e eu me aninhei a ele, debrucei minha cabeça em seu ombro e esconde meu rosto em seu pescoço, lágrimas descendo, suspiros fortes saindo, mas eu estava alheia, agora aninhada sobre ele, seu cheiro me trouxe um pouco mais a realidade, a consciência voltando aos poucos.
Quando eu tentei me levantar, seu abraço forte não deixou, ele me puxou mais para perto e me abraçou com mais força, seus dedos deslizando pelos meus cabelos.
- Sh.Sh. Ta tudo bem Catarina, eu estou aqui. - ele sussurrou em meu ouvido, seu hálido frio mandando arrepios pela minha nuca.
- Minha m..mãe?- aquele caroço enorme na minha garganta, ainda não tinha ido embora, minha voz nada mais do que um sussurro. - Ela morreu mesmo?
Pedro beijou minha testa.
- Eu sinto dizer que sim.
Uma lágrima desceu dos meus olhos.
- Então acabou. - foi tudo o que eu consegui dizer, depois sem que eu percebesse eu cai no sono, e despertei com Pedro me colocando em minha cama.
- Pedro? - Perguntei, meus olhos pesando toneladas, estavam se abrindo aos poucos.
- Durma Catarina, você precisa descançar; - ele disse tirando uma mecha de cabelo do meu rosto, e demorando os seus dedos sobre minha bochecha.
Ele se virou para sair.
- Não - eu agarrei seu braço - Hã, fique... Só mais um pouco, por favor. - minha voz fraca, a dor estampada em cada palavra.
- É claro. - Pedro se deitou ao meu lado e me abraçou.
A noite se passou longa e ininterúpeta, mesmo estando nos braços de Pedro, o caroço que se instalou em minha garganta permanecia, eu não sabia o que fazer, eram tantas coisas para se pensar ao mesmo tempo, tantas decisões e eu sentia o vazio da realidade me açoitando todo o tempo, cada vez me puxando mais para o fundo, conforme minha mente ia aceitando a verdade, eu nunca mais veria minha mãe novamente. E agora que ela tinha partido, minha irmã estava sozinha, indefesa no meio de todo esse lixo, e eu não posso abandoná-la agora, aos poucos eu descobri o que fazer, mas levei muito tempo para aceitar, minha mente reprimia essa idéia automáticamente, evitando a dor que ela traria, mas... Eu tenho que voltar, cuidar da minha irmã, eu não posso traze-lá para cá, no meio desse fogo cruzado, toda essa guerra, e esses vampiros, MEU DEUS! Ela é uma criança, ela merece ter uma infância saudável e normal, mas me afastar dessa família que eu descobri aqui, e... Pedro - Ao pensar nisso enguli em seco e pudi sentir o caroço que se instalava na minha garganta- Eu sabia que se eu fosse embora, eu o perderia, não que eu já o tivesse, mas ao menos eu o tinha por perto, como agora nos momentos em que tudo o que eu preciso é o seu abraço, e se eu for... Então o que me restará? Reprimi a dor que começou a me invadir com essa idéia. Eu suspirei.
- Tente dormir um pouco Catarina, você precisa descançar. - Pedro deslizou seus dedos pelo meu braço. Isso não estava ajudando muito, não quando a dor de partir começava a surgir, não quando eu sabia que logo perderia isso. Reprimi esses pensamentos.
- Eu não estou com sono - menti.
- Você é teimosa - pude sentir o sorriso em sua voz.
- Pedro?
- Sim?
- Você sabe que agora eu terei que ir embora. - o caroço se apertou mais ao dizer isso em voz alta, e minha voz falhou.
Ele não respondeu, e o silencio se arrastou até que pude ver que já clareava.
- E agora você tem que ir? - perguntei, reprimindo o desespero que se instalou em mim, meu coração se acelerou, porque eu sabia que seria a última vez que estaríamos juntos, e ele também sabia disso.
- Sim, você está bem? - ele se sentou.
Não respondi no início, eu pensei sobre essa pergunta, eu queria ao menos ser sincera, e tirei a conclusão de que, não... Eu não estava bem, e não sabia se algum dia eu ficaria novamente, mas no fim nada disso importava.
- Estou - menti.
- Então eu devo ir agora, e você trate de dormir, você precisa descançar - ele se levantou e ficou me encarando. Depois se virou e foi em direção a porta, antes de sair ele se virou - Você sabe que eu iria buscá-la de novo se pudesse, mas infelizmente esse não é o caso - eu podia ouvir a dor em sua voz, e isso só me despedaçou mais por dentro - Durma bem Catarina.
E com isso ele se foi, deixando para trás apenas as memórias que eu guardei no lugar mais seguro da minha mente, para que elas nunca se perdessem, memórias como o som do seu riso, ou como os olhos dele brilhavam magníficamente a luz da lua, ou seu hálito frio que me causava arrepios, ou o seu cheiro que sempre me embriagava e levava uma onde alívio por todo o meu corpo, o seu toque que apesar de frio, deixava uma linha quente pela minha pele, e o pior de todos a dor que se instalou no meu peito, a cada respirar me rasgando mais por dentro.